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Pinturas rupestres atestam que o homem já praticava a Natação, de modo incipiente, no Egito Antigo, cinco ou seis milênios antes de Cristo. Praticava por uma questão de sobrevivência. Os povos daquelas eras começavam a se aventurar, com as suas naus, nas águas do Mar Mediterrâneo e do Oceano Índico. Conhecer os príncípios da Natação significava escapar de um naufrágio, por tempestade ou por guerra.
Gregos e romanos logo aderiram à experiência – então, porém, se utilizava, exclusivamente, o chamado estilo “cachorrinho”, com certeza uma imitação dos animais em luta contra as inundações. Depois, no correr dos séculos, o “cachorrinho” se aprimorou até se transformar numa forma primitiva do estilo “peito”. Em 1538, Nicolas Wynman, um alemão, professor de idiomas que adorava a Natação de rio, publicou um verdadeiro compêndio sobre sua paixão. Paralelamente, progredia, no Oriente, a tentativa do domínio das águas: em 1603, no Japão, o imperador Go Yozei determinou que, nas escolas elementares de lá, obrigatóriamente se ensinassem princípios da Natação às crianças.
Foi, de todo modo, um antropólogo inglês, John Arthur Trudgen, que, em 1873, após uma longa visita de pesquisas à América do Sul, impactado pela velocidade dos nativos locais na travessia de rios e de lagos, introduziu, na Europa e nos EUA, o estilo até hoje denominado de “crawl”. Depressa, torneios de Natação proliferaram nas duas regiões. Curiosidade: durante os seus treinamentos, os atletas disponíveis, a fim de descansarem, viravam os seus corpos e realizavam a Natação de costas. Assim, praticamente num acidente, o novo estilo surgiu. Como, também por acidente, no mesmo período, nasceu o Pólo Aquático – originalmente uma brincadeira de jogadores de Rugby, com bola, em rios e em lagos, ao final dos seus exaustivos exercícios na grama.
Com quatro provas, todas no “crawl”, ou o estilo livre, a Natação integrou o programa dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 1896. O Pólo Aquático se tornou modalidade oficial em Paris, 1900. Ironicamente, tais disputas ocorreram, respectivamente, nas águas da Baía de Zea, junto ao porto do Pireu, e nas correntes descendentes do Sena. Piscina, de fato, apenas em St. Louis, 1904, pioneirismo dos norte-americanos. Daí, consolidação da maravilha, em 1908, nos Jogos de Londres, as nações presentes criaram a FINA, a Fédération Internationale de Natation.
No Brasil, formalmente, as competições de Natação se iniciaram no Rio de Janeiro, na última década do Século XIX. Por causa da cada vez mais crescente rivalidade entre os clubes da época, o Botafogo, o Gragatoá, o Flamengo e o Icarahy de Niterói, em 1897 os seus cartolas decidiram instituir uma entidade reguladora das disputas, a União de Regatas Fluminense, que também administrava os Saltos Ornamentais, o Remo e o Pólo Aquático. A nacionalização da modalidade brotaria em 1916, sob o comando da CBD, Confederação Brasileira de Desportos. Nos Jogos de Antuérpia, em 1920, embora sem nenhum representante na Natação, com 22 atletas o País levou onze, exclusivos, para o Pólo Aquático: num global de doze elencos, uma honrosa sexta posição.
Destaques internacionais
Alfred Hajos
Aos onze de idade, traumatizado pelo afogamento de seu pai, no Rio Danúbio, em Budapeste, Hungria, o garoto Alfred Hajos jurou que se consagraria como um campeão na Natação. Esmerou-se e, em 1895, aos dezessete, conquistou o título europeu dos 100 Metros, Estilo Livre. Daí, nos Jogos de Atenas, 1896, mesmo gripado e nas águas geladas da Baía de Zea, arrebatou o primeiro ouro da História, na distância dileta – e ainda levantou o ouro dos 1.200. Detalhe: além de lambuzarem a pele com graxa, para enfrentar o frio terrível de Zea, os atletas precisavam trafegar, da praia até as raias, em precaríssimos botes de madeira.
Johnny Weissmuller
Nascido numa plaga conflituosa entre a Áustria e a Romênia, refugiado, com os país, nos EUA, desde os quatro de idade, Johnny Weissmuller, um instintivo da Natação, se cristalizou nas antologias por se tornar, aos dezoito, exatamente em 9 de Julho de 1922, o primeiro homem a superar os 100 Metros em menos de um minuto. Na verdade, em muito menos, 58”6. Depois, nos Jogos de Paris, 1924, abiscoitou o ouro nos 100, nos 400 e no revezamento de 4 X 200. Em Amsterdam, Holanda, em 1928, ampliou o seu tesouro com o ouro nos 100m e no mesmo revezamento. Mas, não pôde brilhar nos Jogos de Los Angeles, em 1932. Pouco antes do evento, havia posado, como modelo, para os anúncios de uma fábrica de maiôs. Acabou acusado de profissionalismo. Tudo bem, aderiu ao cinema, em Hollywood, e se tornou o Tarzan.
Daisy Curwen
Apenas nos Jogos de Estocolmo, Suécia, em 1912, as mulheres mereceram o direito de batalhar por uma medalha na Natação. Já havia, então, uma primadista mundial nos 100 Metros, Estilo Livre, a britânica Daisy Curwen, 1’20”6 – hoje, coisa de principiante. Claro, Curwen se inscreveu no evento como a favoritíssima ao primeiro ouro feminino na modalidade. Azar. Na véspera da final, sofreu uma crise de apendicite e acabou num hospital. Arrebatou o título inédito a australiana Fanny Durack, que havia viajado, de navio, da sua pátria à Escandinávia, um sacrifício de três semanas – sem treinamentos. Numa das eliminatórias, Durack cravou o tempo de 1’19”8. Mas, sem a concorrência de Curwen, subiu ao topo do pódio, tranquila, na final, com, somente, 1’22”2.
Dawn Fraser
Dawn Fraser tinha apenas dezenove de idade quando, nos Jogos de Melbourne, na sua Austrália, venceu as provas dos 100 Metros, Estilo Livre (1’02”, novo recorde mundial), 4 X 200 (4’17”1, idem), e ficou com a prata dos 200. Chegaria a Roma, 1960, com marca ainda melhor, 1’00”2, bisaria o seu triunfo nos 100 e ficaria com a prata nos 4 X 100. Enfim, em Tóquio, numa das eliminatórias, se tornou a primeira dama a baixar o minuto nos 100 (59”9), novo ouro, e ainda levou mais uma prata nos 4 X 100. Fraser, ineditamente, até então, somou, no Japão, três títulos seguidos numa mesma distância, na Natação. Pena que fosse traumatizada pela morte da mãe, num acidente de carro, ela na direção – adorava adotar posturas iconoclastas, roubou uma bandeira do país anfitrião, no portal do palácio imperial, e acabou detida. Salvou-a de humilhação maior o imperador Hiroito, que lhe concedeu o perdão crucial e ainda a premiou com a bandeira surrupiada. Os cartolas da Austrália, porém, nada tolerantes, a proibiram de voltar às águas.
Mark Spitz
Depois de abiscoitar cinco medalhas de ouro nos Panamericanos de Winnipeg, Canadá, em 1967, já dono de dez recordes do planeta, aos dezoito de idade Mark Spitz imaginou que, nos Jogos da Cidade do México, em 1968, coletaria seis triunfos. Frustrou-se, porém. Apenas subiu ao topo do pódio em duas provas de revezamento. Em Munique, Alemanha, 1972, de todo modo, Spitz não teve adversários. Foi ouro nos 100 e nos 200 Estilo Livre; nos 100, nos 200 Borboleta; e em mais três disputas de revezamento. Sem dizer que estabeleceu novas marcas universais em todas as suas provas, um fato inigualado até agora.
Destaques nacionais
Maria Lenk
Uma paulistana, descendente de imigrantes germânicos, Maria Emma Hulda Lenk Zigler tinha apenas dezessete anos quando, em Los Angeles, 1932, se tornou a primeira mulher do Brasil a participar dos Jogos Olímpicos. Nadava o estilo Clássico, ou Peito – mas, não passou das eliminatórias da sua turma. Nos anos seguintes, para aprimorar as braçadas, Maria passou a realizá-las de cima a baixo, em relação à superfície das águas. E, de certa maneira, inventou o estilo Borboleta. Chegou mesmo a superar o recorde universal dos 200 Metros, resultado não homologado por falta de documentação oficial. Daí, no evento de Berlim, em 1936, na mesma distância, estacionou nas eliminatórias. Melhoraria as marcas planetárias, dos 200 e dos 400, em 1939, quando treinava para os Jogos seguintes, Tóquio – que a II Guerra cancelou. O seu jeito de praticar o Clássico, porém, criou controvérsias. E a FINA decidiu que o seu estilo, insólito, inusitado, merecia pertencer a uma nova categoria. A partir de Melbourne, 1956, não só as damas, também os homens, passaram a batalhar no formato que Maria idealizara.
Tetsuo Okamoto
Um asmático, por conselho médico, na sua adolescência Tetsuo Okamoto se compeliu a usar a Natação, na década de 40, de modo a melhorar a sua potência pulmonar. Aos dezoito de idade, evoluiu tanto que o seu clube de origem, o Yara de Marília, interior de São Paulo, o remeteu, como bolsista, aos EUA. Okamoto, que percorria cerca de dois mil metros ao dia, passou a se esgotar em dez mil. E se desenvolveu mais ainda, a ponto de conquistar o ouro nos 400 e nos 1500 Metros dos Panamericanos inaugurais, em Buenos Aires, 1951. Nos Jogos de Helsinque, Finlândia, 1952, empacou numa semifinal dos 400. Mas, nos 1500, como um novo recorde continental, formidável, naqueles idos, 18’51”3, garantiu o primeiro bronze do Brasil na história da Natação.
Manuel dos Santos Jr
Nos Jogos de Roma, 1960, três atletas ostentavam condições de título nos 100 Metros Estilo Livre: Jon Henricks, o campeão do torneio de Melbourne, na sua Austrália (55”4); o seu compatriota John Devitt, prata em Melbourne e, depois, primadista da distância (54”6), e Manuel dos Santos Jr., formado no Pinheiros, em São Paulo, apenas quarto nos Panamericanos de Chicago, EUA, 1959 – mas, capaz de um ótimo tempo das eliminatórias da Cidade Eterna, 56”3. Com uma infecção intestinal, Henricks não disputou a decisão de Roma. Na batida de mão, Devitt superou o norte-americano Lance Larson, ambos com 55”2. E Manuel dos Santos amealhou mais um bronze do Brasil na Natação, 55”4. Um ano após, em 20 de Setembro de 1961, com o seu corpo inteiramente raspado com gilete, para diminuir o atrito, o astro do Pinheiros cravou 53”6, o primeiro recorde planetário, oficial, da Natação de seu País.
Ricardo Prado
Um paulista de Andradina, na Natação desde os cinco de idade, Ricardo Prado, integrante de uma família apaixonada pela modalidade, aos quinze participou dos Jogos de Moscou, em 1980. Um especialista multi-estilo, não chegou às finais das suas provas prediletas, os 200 e os 400 Metros Medley. Em 1982, porém, o rapaz, apelidado Pradinho, ganhou os 400 nos Panamericanos de Guaiaquil, Equador, com 4’21”13, recorde mundial, e se credenciou como um dos favoritos no estilo nos Jogos de Los Angeles, 1984. Azar. Nos 200 Metros, se confundiu na sua etapa de classificação e não atingiu a final. Nos 400, se defrontou com o gigantesco canadense Alex Bauman e se limitou ao segundo lugar. Hoje, Pradinho luta para estimular o seu esporte nos meios universitários.
Gustavo Borges
Seguramente, o melhor da História da Natação no Brasil, um paulista de Ituverava, nascido em 1972 - Gustavo Borges. A coleção dos seus títulos é auto-definidora: em Jogos Olímpicos, de Barcelona, 1992, a Sydney, 2000, duas medalhas de prata e duas de bronze; em Jogos Panamericanos, de Havana, 1991, a Santo Domingo, 2003, oito de ouro, oito de prata e três de bronze; mais duas de bronze em certames mundiais de piscina de 50m; três de ouro, três de prata e uma de bronze em mundiais de piscina de 25m. Gustavo carregou a bandeira do País na cerimônia de encerramento dos Jogos de Atenas, 2004.