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Carlo Ancelotti é um vitorioso no futebol. Jogando pelo Milan ganhou duas Ligas dos Campeões, entre outros títulos. Depois, como técnico rossonero, mais um par de conquistas da maior competição de clubes do mundo. E ainda deixou escapar outro, na incrível final de 2005, perdida para o Liverpool nos pênaltis depois dos incríveis 3 a 3 com reação inglesa no segundo tempo.
Apesar de seu currículo, Ancelotti é um sujeito questionado, no Brasil há quem o rotule como retranqueiro. Após temporadas ruins no Milan, deixou o time italiano e desembarcou em Londres. É técnico do Chelsea desde o começo da atual temporada. Nas entrevistas coletivas, ouve perguntas em inglês e as responde no mesmo idioma, mas tem a ajuda de um intérprete quando não compreende direito a questão ou lhe faltam as palavras mais adequadas.
Pois o técnico "defensivista" tem comandando um time dos Blues avassalador. É o segundo melhor ataque da Premier League com 28 gols, atrás apenas do Arsenal, com 32, e mantém a segurança lá atrás com a defesa mais eficiente, apenas oito tentos sofridos. Na Champions League são mais oito gols até aqui. Nada mal. Além disso, os Blues têm 11 vitórias seguidas em casa, em todas as competições que disputam. O Arsenal foi o último a vencer em Stamford Bridge, em novembro de 2008, portanto, há um ano.
O Chelsea venceu seus nove jogos em casa sob o comando de Carlo Ancelotti, e não leva gol em seu estádio desde que Hunt marcou o gol do Hull City nos 2 a 1 na primeira rodada. Já são 782 minutos de invencibilidade da defesa do time azul de Londres. E mais: em 20 jogos foram 28 gols no segundo tempo. E Drogba fez seis nos cinco últimos compromissos. Ele tem 12 na temporada.
Domingo, às 14 horas de Brasília, o Chelsea receberá o Manchester United, jogo que a ESPN Brasil exibirá, ao vivo. Estarei nos comentários ao lado de Paulo Andrade. Será mais um desafio para Ancelotti, o maior em casa, desde que chegou à Inglaterra. Uma vitória pode confirmar o sucesso do ex-treinador do Milan num clube rico onde Luiz Felipe Scolari fracassou. E se o idioma era problema para o brasileiro como muitos alegam, para Ancelotti não é diferente.
O Ceará é a equipe que há mais tempo disputa a segunda divisão nacional, desde 1994. E finalmente deverá retornar à elite em 2010, 17 anos depois de sua última participação na Série A. E com a boa campanha, o Vozão tem atraído sua apaixonada torcida aos jogos no Castelão. Cerca de 40 mil vibraram com os 2 a 0 sobre o Bragantino na terça-feira.
Na segundona, a média de público do Ceará em casa é inferior apenas à do Vasco, que atrai 20.813 torcedores por compromisso no Rio de Janeiro. E supera times da primeira divisão, como o Palmeiras, há 18 rodadas na liderança, entre outros. Torcedores de times paulistas argumentam que o ingresso em Fortaleza é mais barato. Sem dúvida. A média salarial também é bem menor, convenhamos. E nenhum clube é obrigado a cobrar mais caro pela entrada.
Fato: é pífia a média do Palmeiras, líder de um campeonato por pontos corridos há tanto tempo e incapaz de levar mais de 20 mil torcedores por partida. Se no estádio cabem 27 mil e poucos, o aceitável seria uma média de 24 mil, 25 mil, pela campanha do clube. E se o ingresso é tão caro, como explicar a casa lotada quando o time vence dois, três jogos seguidos? O palmeirense que reclama desse post deveria é colocar a mão no bolso e comprar um ingresso.
Confira as médias de público do Vovô e das equipes da Série A do Brasileirão 2009:
39.092 Atlético-MG
32.896 Flamengo
22.787 São Paulo
20.496 Corinthians
19.475 Sport
19.432 Grêmio
19.423 CEARÁ
18.047 Palmeiras
17.997 Cruzeiro
17.900 Internacional
16.212 Coritiba
15.843 Fluminense
15.768 Atlético-PR
13.739 Náutico
13.321 Vitória
12.620 Botafogo
11.737 Goiás
9.974 Avaí
9.346 Santos
5.284 Santo André
3.454 Barueri
Fonte: CBF
Que o Grêmio detém a melhor campanha em casa no Campeonato Brasileiro não é novidade. Curiosa na tabela de classificação, levando em consideração os pontos ganhos com as equipes atuando em seus domínios, é a presença do Flamengo em segundo lugar. Um belo desempenho, apesar de sérios tropeços no Rio de Janeiro.
Jogando no Maracanã, o tricampeão carioca empatou com Avaí, Botafogo, Barueri, Náutico e Fluminense, além de perder para Palmeiras e Cruzeiro. Foram 16 pontos deixados pelo caminho, metade contra equipes que, quando enfrentaram os rubro-negros, lutavam para deixar as últimas posições na classificação da Série a.
São Paulo e Palmeiras, times que mais pontos fizeram em 33 rodadas, vêm logo atrás no desempenho doméstico. O Atlético Mineiro, que tradicionalmente usa a força de sua torcida e é outro integrante do grupo dos quatro mais bem colocados na classificação geral. Mas curiosamente o Galo ocupa apenas o nono posto no ranking caseiro.
Dos cinco piores jogando em casa, quatro (Sport, Santo André, Fluminense e Botafogo) lutam contra a queda para a segunda divisão e o outro (Santos) ainda não está matematicamente livre de tal risco. Confira a tabela abaixo com a pontuação de cada time em casa.
Classificação por pontos ganhos
1º Grêmio 40
2º Flamengo 37
3º São Paulo 36 (15 gols de saldo)
4º Palmeiras 36 (14 gols de saldo)
5º Internacional 34 (19 gols de saldo)
6º Vitória 34 (15 gols de saldo)
7º Barueri 32 (18 gols de saldo)
8º Avaí 32 (12 gols de saldo)
9º Atlético-MG 32 (11 gols de saldo)
10º Coritiba 30 (9 gols de saldo)
11º Corinthians 29 (3 gols de saldo)
12º Náutico 28
12º Goiás 27
14º Cruzeiro 26 (8 vitórias)
15º Atlético-PR 26 (7 vitórias)
15º Sport 24 (7 vitórias)
17º Santos 24 (6 vitórias)
17º Santo André 23
19º Fluminense 22
20º Botafogo 21
Classificaçao por aproveitamento
1º Grêmio 83,3%
2º Flamengo 72,5%
3º Vitória 70,8%
4º Palmeiras 70,6%
São Paulo 70,6%
6º Atlético-MG 66,7%
Barueri 66,7%
Internacional 66,7%
9º Avaí 62,7%
10º Corinthians 60,4%
11º Coritiba 58,8%
12º Náutico 54,9%
13º Atlético-PR 54,2%
14º Goiás 52,9%
15º Cruzeiro 51,0%
16º Santos 50,0%
Sport 50,0%
18º Fluminense 45,8%
19º Santo André 45,1%
20º Botafogo 43,8%
Márcia Feitosa/VIPCOMM
White Hart Lane não é um estádio fácil de se chegar, pelos padrões londrinos. De metrô, o mais eficiente meio de transporte da capital inglesa, você desce na estação Seven Sisters e escolhe entre uma caminhada superior a meia hora em ritmo acelerado, ou um ônibus que leva pelo menos 10 a 15 minutos devido ao tráfego. Foi minha opção na visita ao campo do Tottenham Hotspur, que recebeu o Everton na noite de terça-feira pela Carling Cup, a Copa da Liga.
Nesse torneio não há jogo de volta, por isso, ao contrário do que ocorre na Premier League, na qual os visitantes têm 5% dos ingressos, a carga do time que atua fora de casa é de 15%. Daí a grande presença dos fãs do Everton, que em sua maioria encararm as mais de três horas entre trem, metrô e ônibus desde Liverpool. Como nos demais estádios, uma entrada específica foi destinada a eles, que transitavam sem esquema especial de segurança.
Os ingressos para jogos da Carling Cup (cerveja muito vendida no Reino Unido e que há várias temporadas patrocina a Copa) não costumam ser tão disputados. Por isso, promoções são feitas por alguns clubes nesses cotejos, com bilhetes mais baratos e que oferecem a torcedores de menor poder aquisitivo oportunidade de ver uma partida no estádio. Mas como o Tottenham ganhou a competição em 2007-8 e foi finalista em 2008-9, sua torcida a prestigia, ainda mais contra um rival de porte.
A ótima presença de público em White Hart Lane confirma que a relação do torcedor inglês com seu time de fé não costuma depender de resultados. Na luta para se fixar no grupo dos quatro melhores da Premiership, os Spurs vinham de uma tétrica derrota para o Stoke City, em seus domínios. Pífio. Já o Everton, foi massacrado em Portugal pelo Benfica (5 a 0) pela Liga Europa e perdeu no fim de semana pelo campeonato diante do instável Bolton.
Credenciado para ver a partida, sem câmeras de TV, nossa posição no estádio era junto aos jornalistas de mídia impressa e internet, entre os bancos de reservas dos dois times e as pequenas cabines das rádios. De perto, é fácil comprovar que o irlandês Robbie Keane, independentemente de ser bom jogador, passa o tempo todo jogando para a torcida. Se erra, gesticula desesperadamente. Se o companheiro não fez o que ele queria, reage como quem empurra a culpa no outro.
Harry Redknapp, técnico do Tottenham, pouco se levanta para orientar o time, ao contrário de David Moyes, que passa os 90 minutos agitado e quase sempre de pé falando com os atletas. Do lado dos Spurs, o manager nitidamente divide parte da missão durante a bola rolando com seu treinador de campo, o auxiliar direto Joe Jordan, ex-goleador da seleção escocesa. É ele quem mais se levanta para falar com os jogadores.
O Tottenham é o time da colônia judaica de Londres, fica no norte da cidade, perto do Arsenal, o maior rival. Sua torcida é muito participativa e os gritos que incentivam a equipe vêm, invariavelmente, dos que se concentram entre o gol à direita dos bancos de reservas e a bandeirinha de escanteio do lado oposto.
White Hart Lane conta com dois placares grandes, com telões que mostram o jogo e replays, algo comum nos estádios da Inglaterra. Inclusive dos gols de Huddlestone e Keane que levaram o time da casa ao triunfo por 2 a 0.
A visita à cancha dos Spurs fechou minha semana (quase oito dias para ser preciso) em Londres, com jogos em todos os dias. Hora de retornar ao Brasil e pensar na volta à capital do futebol, para rever estádios que visitei e conhecer outros. Opções não faltam, como os campos do West Ham, Milwall, Charlton, Barnet, Leyton Orient, Brendford... E de trem é possível ir a outras cidades.
Quando vêm à Europa as pessoas pensam em visitar museus, parques e monumentos. As agências de viagem deveriam oferecer pacotes com jogos de futebol. Seria um ótimo negócio.
Segunda-feira também é dia de futebol na Inglaterra. Quem acompanha os canais ESPN sabe que, de vez em quando, rola um jogo da Premier League no primeiro dia útil da semana. No caso específico desta, o cotejo era pela Championship, a segunda divisão. No confortável (24.161 lugares), e novo (inaugurado em 1998) Madjeski Stadium, o Reading recebeu o Leicester City.
Reading fica pertinho de Londres, cerca de 40 minutos de trem - a passagem custa 15 pounds (ida e volta), cerca de R$ 45. O clube estava na elite do país duas temporadas atrás, quando caiu. A cidade se divide entre o time de rugby, o London Irish, vice-líder da Guinees Premier League, e o de futebol, que está à beira da zona do rebaixamento à League One (a terceirona).
O estádio serve aos dois esportes, por isso, a marcação do rugby sempre está visível nos jogos dos Royals, como o time de futebol do Reading é chamado pelos fãs. Seis dias antes, vi de perto a derrota da equipe para o Queens Park Rangers, por 4 a 1. Daí, a agradável surpresa com mais de 16 mil pagantes nesta peleja - a cidade tem 235 mil habitantes.
Da estação ferroviária ao Madjesky são três milhas. Para evitar atrasos, recorri a um taxi (9 pounds). Comprei o ingresso momentos antes do apito inicial, com cartão de crédito. Por 26,50 pounds, sentei na primeira fila, entre a linha de fundo e a risca da grande área, pertinho do gramado. Os fãs do Reading são animados, cantam músicas diferentes das executadas pela maioria das demais torcidas, misturam, de certa forma, o comportramento dos jogos de rugby e futebol.
Mas o time é fraco, e como perde gols. Acabou perdendo de novo, 0 a 1, para euforia dos torcedores do Leicester, em bom número em plena noite de segunda feira e a 84 milhas de distância de casa. Na saída, por incrível que pareça, o time da casa recebeu aplausos pelo esforço na busca pelo gol de empate. Honestamente, houve muito boa vontade dos fãs.
Na volta, ônibus especiais de dois andares levam os torcedores para outros pontos da cidade. Por 3 pounds voltei à estação. Nele, torcedores dos foxes conversavam. Um deles, grandalhão com cara de bobo, exibia uma recente marca, um corte, na testa, possivemente consequência de alguma briga. Era um dos assuntos da dupla, que citava o mesmo o palavrão pelo menos uma vez por frase pronunciada.
Na plataforma, antes de embarcar no horário das 22h46 para Londres, um grupo de seis seguidores do Leicester fazia alguma bagunça e policiais chegaram junto para conter a turminha. Torcedores do Reading residentes na capital também voltaram naquele trem. Pouco mais de uma hora e meia após o apito final estava no hotel, em Londres. Para uma segunda à noite, com chuvinha fina, nada mal.
Os incidentes entre torcedores do Milwall e do West Ham, em agosto, quando os dois times se enfrentaram pela Carling Cup, a Copa da Liga, em Upton Park, estádio dos Hammers, deixaram as autoridades inglesas preocupadas. Eles sabem que o hooliganismo não acabou, apenas está contido desde a adoção do pacote de medidas chamado "Relatório Taylor", no começo dos anos 1990.
E no caso específico desses dois clubes cujos fãs tanto se odeiam, o temor é maior, e justificável. Sábado, pela League One, a terceira divisão, o Milwall recebeu o Leeds United no The New Dean, e um torcedor do time londrino abriu os botões da camisa para exibir, rindo, em tom de deboche, um fardamento do Galatasaray.
Mas qual a relação entre o clube turco e o Leeds? Voltemos nove anos no tempo. Pelas semifinais da Copa da Uefa, em 2000, o time inglês visitou o Galatasaray, cotejo cercado por confrontos entre seguidores das duas agremiações em Istambul. Nas brigas, dois torcedores do Leeds morreram. A macabra provocação do elemento careca e sorridente (abaixo) repercute na Inglaterra.
Os dirigentes do Miwall prometem banir por toda a vida o sujeito dos jogos da equipe do Oeste de Londres, assim que ele for identificado, o que esperam conseguir com as imagens do circuito interno de vídeo e as fotos feitas pela imprensa. Não deverá ser fácil. Obviamente orgulhoso do seu "feito", o hooligan, ou admirador do hooliganismo, irá se esconder como um rato.
Fim de semana de Premier League, em Londres e em Liverpool. Os planos iniciais incluiam a Championship (segunda divisão) ou League One (terceirona), que ofereciam, na capital, respectivamente, os seguintes cotejos às 15 horas do sábado: Crystal Palace x Nottinghan Forest e Miwall x Leeds United. Infelizmente, se fosse a uma dessas duas partidas não daria tempo de chegar a Stamford Bridge para Chelsea x Blackburn, pela Premiership, que acompanhei. No domingão, Liverpool x Manchester United.
Estive na quarta-feira no campo dos Blues acompanhando os 4 a 0 sobre o Atlético de Madrid pela Liga dos Campeões, mas na ocasião os caras da Uefa me colocaram em outro setor do estádio, do lado oposto aos bancos de reservas. Pelo campeonato inglês fui encaminhado à área onde ficam os jornalistas, mais próxima do gramado, logo atrás dos técnicos, onde foi possível observar melhor alguns detalhes da peleja e dos jogadores.
Como visitei o Emirates, casa do Arsenal, antes de me deslocar para o estádio do Chelsea, desci do metrô na estação Fulham Broadway a exatos oito minutos do apito inicial. Deu tempo de retirar a credencial e ver a partida desde o começo. Por sinal, a casa dos Gunners também tem "underground station" a poucos metros. Outro estádio que visitei sábado, o novo Wembley, é visualizado no momento em que a pessoa está deixando a estação. Não há estímulo para que se vá aos jogos de carro, mas de transporte coletivo, claro. Fifa e CBF deveriam lembrar disso.
Na cancha,ficou evidente que Anelka e Drogba são fortes, fortíssimos, não só técnica como fisicamente. Quando colocam a bola na frente, fica complicado para o zagueiro superá-los no corpo a corpo. Falando em beques, a cada saída do John Terry para definir uma jogada, ele já passava a sensação de que iria ganhar a disputa. Quando a bola está no ataque do Chelsea, o capitão observa o adversário a ser marcado a certa distância e quando os Rovers iam à frente, algo raro, Terry demonstrava absoluto domínio da situação. Zagueiraço.
Stamford Bridge é um estádio antigo (inaugurado em 1904), como tantos na Inglaterta, mas bem adaptado às necessidades atuais. As cadeiras dos torcedores têm relativo conforto, embora não se comparem às instalações do novíssimo (é de 2006) campo do Arsenal. A sala de imprensa, onde os técnicos falam após os jogos, é confortável e as condições de trabalho boas. Sempre se não compararmos com o dos Gunners, onde os jornalistas têm as coletivas num auditório como os de Barcelona e Real Madrid, além de uma área para escrever matérias, editar e enviar fotos tão ampla que parece a redação de um jornal.
O Chelsea passeou, e na entrevista após os 5 a 0 sofridos pelo seu time, Sam Alardyce, técnico reclamão à beira do campo, demonstrou bom humor ao falar do massacre sofrido pelo Blackburn. Ele enalteceu a força do adversário treinado por Carlo Ancelotti, que tem fama de retranqueiro mas escalou o time agressivo duas vezes na semana. Resultado: nove gols. Como eventualmente tem dúvidas para entender as perguntas, em inglês, dos repórteres, o italiano vai à coletiva com um intérprete que fica ao seu lado e o socorre algumas vezes.
********
Após mais um show dos Blues, fui à estação Euston comprar os bilhetes de trem para o domingo, quando parti rumo a Liverpool às 8h15. Pouco depois das 11 horas estávamos na "Terra dos Beatles". Viagem boa, tranquila, num trem repleto de torcedores dos Reds que vivem em Londres. E no caminho, a cada parada, se desciam passageiros que nada tinham com o clássico diante do Manchester United, mais fãs do time de Gerrard entravam nos vagões. Aliás, a lamentar apenas a ausência do capitão em campo, terei que esperar um pouco para ver, in loco, o meu jogador inglês favorito em ação.
Na cidade, horas antes da peleja, muitas camisas dos Reds. As pessoas chegam de várias partes da Inglaterra para apoiar o time. No trem e no caminho, um ou outro fã dos Red Devils, mas bem menos torcedores visitantes caminhando livres, avulsos, do que em outras partidas. É um clima de maior rivalidade, tanto que ao final do jogo em Anfield, o pessoal do Manchester United ficou um bom tempo em seu setor, esperando a saída da galera da casa, para aí sim seguir seu caminho.
A decantada organização inglesa nem sempre prevalece. Para um jogo desses simplesmente não há ingressos há meses. Credenciado pela ESPN junto à Premier League, tive que falar com cinco pessoas até encontrar o coordenador de imprensa que me entregou os documentos de acesso ao estádio e à sala de entrevistas. Pior: instalado numa determinada posição para jornalistas, dali fui retirado dez minutos antes de a bola rolar e só encontraram outro local aos seis minutos de partida, após nove idas e vindas e conversas entre seis diferentes funcionários, educados, mas confusos. Uma zona.
A torcida do Liverpool é mesmo diferente da maioria na Inglaterra. Fora do estádio, atmosfera envolvente, com muitas referências aos fãs dos Reds, tanto que lojas especializadas em produtos do time posicionam caixas de som na calçada tocando, sem parar, músicas e cânticos entoado por fanáticos pelo clube. Participativa, a galera apóia, mexe com os rivais, participa. O estádio está superado, fácil entender os planos do clube, que deseja construir um novo. Anfield deixa (muito) a desejar em conforto e instalações para a imprensa, mas é especial.
O gol que abriu o placar proporcionou uma das maiores vibrações de torcida que já testemunhei. Com quatro derrotas seguidas, o Liverpool precisava vencer, e o tento de Fernando Torres tirou um peso das costas dos mais de 40 mil fãs dos Reds em Anfield, estádio que existe desde 1883. No final, drama com a tentativa de pressão do United e alivio com os 2 a 0. Uma explosão de euforia seguida do apito final e de "You'll Never Walk Alone". Um espetáculo. Uma experiência inesquecível. Se você tiver a chance, vá a Anfield antes que acabe.
Pode não existir o jeitinho brasileiro na Inglaterra, mas há, digamos, o jeitinho inglês. E foi ele que me colocou dentro do Vicarage Road para ver mais uma peleja da Championship, a segunda divisão da Terra da Rainha. Em ação, o Watford, com sua torcida quente, animada, empolgante para os padrões britânicos até, e o Sheffield Wednesday, fraco em qualquer dia da semana, como na gelada noite de sexta-feira ao norte de Londres.
Primeiro vamos ao trajeto. Chegar a Watford partindo do coração da capital não é difícil. A partir de Euston, estação do metrô conectada a um enorme terminal ferroviário, embarquei no "London Midlands", trem moderno, rápido, bancana, que levava para casa pessoas que vivem nos arredores de Londres após um dia de trabalho. Alguns seguiam no batente com seus notebooks abertos sobre as bancadas que formam mesinhas diante das poltronas.
Uma só parada e em menos de meia hora estávamos em Watford Junction, último estágio da linha "overground", de cor laranja. Já havia observado no mapa que aquela não era a mais próxima do estádio, mas a ela se chega mais rapidamente. Segui torcedores do Wednesday que vieram no mesmo vagão e, após pouco mais de 20 minutos de caminhada em bom ritmo, estávamos na velha cancha do clube de Elton John. Faltavam dez minutos para o início do jogo isolado da noite, marcado para 19h45.
A ESPN pediu meu credenciamento, mas a burocracia da Championship não o confirmou. Fui ao setor de imprensa e, no portão, um funcionário procurou meu nome na lista. Não o encontrou. Já pensava em correr à bilheteria mais próxima ao ver um pedaço do gramado e os jogadores prontos para o cotejo. Mas o cara tinha boa vontade, então mostrei as credenciais da imprensa brasileira, crachá da ESPN Brasil, e o mais importante nas circunstâncias, o "ID" da Premiership, sem o qual jornalistas não têm acesso aos jogos da primeira divisão, que exigem, além dessa carteirinha, uma credencial específica por partida.
Os quase 800 torcedores do time de Sheffield começaram a tomar o caminho de casa na metade do segundo tempo com a goleada do Watford, que empolgava seus cerca de 14 mil fãs. Muita cantoria no Vicarage Road, inaugurado em 1921. O estádio não tem grande estrutura. Como a partida era exibida ao vivo pela TV, mais câmeras foram instaladas e andâimes onde se posicionavam os funcionários das emissoras. Isso forçava a não utilização de parte do setor de cadeiras atrás dos bancos de reservas, onde estávamos.
Bem conservadinho, aconchegante, o campo do Watford não chega a empolgar pelo conforto, mas atrai pelo clima de futebol inglês dos anos 70 e 80, com uma galera animada, que chega e sai do campo cantando, e jogo muito disputado. Atmosfera diferente, mais britânica, pode-se dizer. Ali há torcida, não plateia.
Repleta de paradas em estações diversas, a viagem de volta levou cerca de uma hora, com duas baldeações já em Londres, no final do trajeto. Uma experiência como essa vai além de curtição do jogo e do clima no estádio num duelo pela segunda divisão inglesa, programa de índio para muitos, mas uma aventura estimulante para quem é maluco por esse jogo.
Londres é muito legal, afinal, além de tudo de interessante que a cidade oferece, tem futebol quase todo dia. E gente boa, capaz de driblar a burocracia e permitir que um jornalista brasileiro que desejava apenas ver Watford x Sheffield Wedenesday acompanhasse mais uma partida da animada Championship.
PS: recado aos que se recusam a entender as coisas como elas são, não entrei de penetra, o texto explica isso, a credencial foi pedida há semanas, mais de um mês, um contrato assinado entre ESPN e Championshiop, mas eles, bur(r)ocráticos, não confirmaram meu acesso, o que expliquei às pessoas no clube e, razoáveis, elas permitiram minha entrada após a devida identificação.
Nas andanças pelos estádios da Inglaterra, quarta-feira à noite fui a Stamford Bridge ver Chelsea x Atlético de Madrid, pela Uefa Champions League. Tudo bonito, organizado, exemplar. Como a belíssima atuação do time inglês. E joga bola mesmo o tal de Frank Lampard.
In loco fica mais fácil observar a participação ativa do meia dos Blues em campo. O cara se apresenta para o jogo, sempre, passa, arma, finaliza, dá assistências e faz gols. Neste cotejo, o camisa 8 se transformou no quinto maior artilheiro da história do clube (veja a lista abaixo).
Os maiores goleadores do Chelsea
Bobby Tambling 202
Kerry Dixon 193
Roy Bentley 150
Peter Osgood 150
Frank Lampard 133
Jimmy Greaves 132
Além do futebol do time da casa, chama a atenção a tranquilidade com a qual convivem, antes, durante e depois da peleja, torcedores dos dois times. Espanhóis desfilavam pelas ruas de Londres vestindo camisas do Atlético sem problema. Da mesma forma chegavam ao estádio, onde fizeram muito barulho.
Outro detalhe interessante: faixas exibidas na torcida do Chelsea identificavam torcedores dos Blues de Estocolmo, do Chipre e da Polônia. Fica evidente que a popularidade do clube londrino cresce, muito, e além das ilhas britânicas.
Infelizmente a chance de comprar um ingresso àquela altura era zero. Voltei para a estação Putney Bridge caminhando pelo Bishops Park, de onde fiz, por telefone, minha participação no programa Fora de Jogo, da ESPN. Vi o emocionante empate em 1 a 1 pela TV, mas observar de perto a movimentação e os pubs lotados antes do jogo valeu a pena.
Noite de terça-feira em Londres. Noite de Champions League na Europa, mas não na capital inglesa, com o Arsenal atuando na Holanda e o compromisso do Chelsea marcado para quarta. Noite de futebol mesmo assim. Noite de Championship, a vibrante segunda divisão da Inglaterra.
O time londrino, que tem como acionistas a dupla Bernie Ecclestone-Flavio Briatore, não conta com uma grande torcida, mas atraiu 11.900 pagantes para o duelo com o Reading, recém-rebaixado da Premiership. Os fãs estavam animados depois dos 4 a 0 sobre o Preston, no final de semana.
O setor era próximo à linha da grande área, na terceira fila, pertinho do campo. Como não houve casa cheia, me acomdei um lance acima, na cadeira 62 D, que tem gravado o nome de Mister Alan Purcell, ausente nesta noite. Se você quer fazer observações táticas, claro que há locais melhores, mas para sentir o jogo é o ideal.
Atendimento, cadeiras, comportamento dos torcedores, orientação dos funcionários, tudo segue o modelo Premier League. Até o posicionamento de seguranças do clube mandante à beira do granmado quando o jogo está prestes a terminar é como o da divisão de elite.
A partida, como é comum no futebol inglês, foi bem disputada, interessante. O QPR abriu 4 a 0, para euforia dos fãs. Quando no Reading fez o tento de honra, sua torcida, atrás da meta à direita dos bancos de reservas, vibrou mais do que o normal para as circunstâncias.
Uma experiência bacana, que vale a pena. Claro que a repetirei. Se você for à Inglaterra e quiser acompanhar um compromisso do QPR, não hesite. Duas estações do metrô levam o público ao estádio, vizinho do enorme complexo de prédios da BBC. O ambiente na cancha é familiar, animado, tranquilo, convidativo. Programaço para loucos por futebol.
Já em São Paulo foi editor da Revista Placar entre 1993 e 1994. Posteriormente, tornou-se editor executivo da Revista do Futebol, editor-chefe das revistas Audio Car, Som & Carro, Cidade e Som e Casa, repórter da revista Forbes Brasil e do jornal Valor Econômico, editor-chefe do portal Ajato, editor da TV Terra, portal Terra, além de editor do site do programa Auto Esporte, da Rede Globo.
Lecionou nas faculdades de Jornalismo e Rádio e TV da Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo, por quatro anos (entre 2002 e 2006). Também deu aulas de Rádio e TV na Internet, no curso de Rádio e TV do Ceinter-FASP em 2004. Em 2007 foi professor no curso de pós-graduação em jornalismo esportivo da FMU, em São Paulo.
Comentou futebol na Rádio CBN entre 2001 e 2002 e desde 2004 é comentarista da Rádio Eldorado/ESPN e dos canais ESPN Brasil e ESPN, onde acumula a função de chefe de reportagem. Assina uma coluna na revista Trivela e, além de todo o conhecimento de futebol, acumula o interesse pelo automobilismo e divide a mesa do programa Limite com Flávio Gomes e João Carlos Albuquerque.
Mauro Cezar Pereira é de Niterói (RJ) e começou no jornalismo em 1983. Passou pela Rádio Tupi, Sistema Globo de Rádio, Rádio Manchete, O Globo, O Dia e Jornal do Brasil, além de Editor do Jornal dos Sports. Comentarista dos canais ESPN, e da Rádio Eldorado/ESPN, assina uma coluna na revista Trivela
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